Food for Thought | Feminism

Há alturas em que tenho mesmo muita pena da má informação que algumas pessoas recebem. É certo que somos livres de formarmos e termos a nossa própria opinião, mas há coisas que não conseguem mesmo passar-me ao lado. Já não me admira e já não me faz confusão um homem dizer que não é feminista e ter um certo horror à palavra, mas agora uma mulher, só me apetece dizer:

204Não é mentira nenhuma que a palavra “feminismo” tem a sua má fama, mas isso não implica que se feche os olhos aos problemas à nossa volta, sobretudo quando afectam o nosso género. Um pouco de orgulho em ser mulher, não? Escrevo estas duas frases ao texto mais triste e mais desanimador que já li nos últimos tempos: então não é que a miúda disse com todas as palavras que não havia sentido para as mulheres brancas ocidentais serem feministas, por sermos aquelas mais privilegiadas? Desculpem as próximas palavras, mas a gaja só pode estar a gozar com a minha cara, certo? Ok que temos mais direitos, mais privilégios, mais oportunidades, mais isto e mais aquilo, que as restantes mulheres, mas isso não implica que não possamos ser proactivas. É por estes pensamentos elitistas e de superioridade racial é que estamos na alhada social em que estamos. Qual é o objectivo de lutar por algo se o apoio para tal não vem de todos os lados? Porque é que por ser branca e ocidental não posso defender o direito à igualdade de géneros – que é no fundo aquilo pelo qual se está a lutar? Não sei, mas talvez, se usássemos o nosso white privilege para fazer algo de bom as nossas futuras gerações, em vez de dizermos idiotices?

E um dos outros argumentos também foram lindos. Há menos mulheres na área das STEM e em posições elevadas – daquelas como CEO e afins, y’know – por escolha própria. A minha resposta é um autêntico:

282É certo que há quem faça esta escolha e não tenho absolutamente nada contra isso; mas a questão aqui é não só a dificuldade de acesso a estas posições por mulheres – porque continuam-se a preferir homens -, mas também uma mentalidade de séculos e séculos que diz que o lugar da mulher é na cozinha, e não atrás de uma laboratório de investigação científica e muito menos como CEO de uma grande empresa. É só pensar um bocadinho… Quantas grandes descobertas científicas são oficialmente atribuídas às mulheres que nelas participaram? Quantas CEO é que são entrevistadas nos dias de hoje? Mas os argumentos surreais não ficam por aqui. A miúda ainda diz que é errado dizer-se que as mulheres não recebem o mesmo que os homens, até porque estão maioritariamente em empregos que pagam pior aos seus trabalhadores. A esta altura do texto só me pude perguntar em que mundo paralelo é que a miúda vive. Uma morada agradecia-se que isto na Terra está a ficar um bocado crítico. Maybe, em empregos em que apenas se pague o ordenado mínimo toda a gente acabe por receber o mesmo, mal que não seja porque na teoria é suposto não se pagar menos que o ordenado mínimo. Mas agora não me venham cá com contos de fadas da Disney porque em posições mais elevadas os salários são completamente díspares. E a miúda que me desculpe também, mas o facto de podermos e querermos engravidar não implica que trabalhemos menos e por isso tenhamos que receber menos que um homem com uma posição empregatorial igual – enquanto a minha mãe esteve grávida de mim e até eu ter uns 8 anos, ela trabalhou, estudou (curso superior) e cuidou de mim ao mesmo tempo, sem isso ter alguma vez implicado prejuízos nas suas funções como mãe, aluna e trabalhadora. Quem não vê estas disparidades salariais ou é muito cego, ou não as quer mesmo ver à frente dos seus olhos.

E depois existam uns quantos comentários acerca do assédio e da violência a que somos sujeitas e da rape culture. É claro que as vítimas aqui não são só as mulheres, por isso, para que raio é que o feminismo importa aqui? Epá não sei, se calhar com a igualdade de géneros seria mais fácil para os homens perceberem que não há vergonha em admitir fraqueza e a posse de sentimentos, não? Se calhar era uma maneira de acabarem-se com estes estereótipos que homem não tem sentimentos e que isso é só coisa de gaja, não? A verdadeira questão aqui não é ver quem é que tem a maior quantidade de vítimas – o objectivo não é uma guerra de sexos como a comunicação social gosta muito de referir a questão do feminismo -, embora não deixem de ser números importantíssimos, mas sim o modo como a nossa sociedade funciona. O mal está em ensinarem-se muitos rapazes que eles têm legitimidade para fazerem o que quiserem, e que nós (mulheres) somos basicamente das escravas do seu prazer. O mal está em ensinarem-se muitas raparigas que eles têm de ser submissas aos homens da sua vida. O mal está em ensinar-se que a culpa é sempre da vítima. O mal está em não se admitir que isto é um problema.

gender rolesHonestamente, o post da miúda teria sido mais acertivo se estivesse apenas a apontar para o lado mais extremista do feminismo, e não a condenar o movimento geral em si. Não é por as más acções de uma minoria que devemos condenar uma população inteira. A sociedade já é problemática on its own, não precisamos de a envenenar mais. O problema aqui é a má informação que é passada pela comunicação social: só transmitem metade da informação e os eventos mais escandalosos, que é aquilo que vende mais; a informação real e menos revolucionária fica esquecida.

6 thoughts on “Food for Thought | Feminism

  1. Sofia Sousa says:

    De facto, desperdicei o benefício da dúvida com quem não consegue ver para além do seu umbigo. Vou ter de mudar a minha posição e dar-te a razão, sem nenhum “mas”.
    (O último post aborreceu-me tanto, que não quero ver nada do género nos próximos dias. Até se perde um bocadinho – ainda mais – de fé na humanidade. Que falta de humildade!)
    Tive de me lembrar logo deste teu post.

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  2. sweet says:

    Tal como disseste mais para o final do texto o patriarcado reprime não só mulheres mas também homens penso que é isso que o Feminazismo ou Feminismo de 3ª geração como lhe quiserem chamar não tem em consideração. Trata-se apenas de um movimento de ódio ao sexo masculino e não tem preocupações mínimas com o bem-estar das mulheres ocidentais, nem orientais (muito menos com o dos homens).
    Penso que o problema do tal artigo que referes reside na generalização, partindo do pressuposto que hoje em dia só existem feminazis e já não há verdadeiras feministas.
    É óbvio que devemos ter em conta um contexto mais alargado e, nesse contexto, de facto, quem mais sofre são as mulheres não-ocidentais que não têm direitos básicos já há muito conquistados no Ocidente.
    Contudo, tal como referiste, isto não implica que a luta por estes lados seja inválida, mas penso que a luta deve considerar a opressão dos dois sexos e deve procurar consciencializar todos. A mulher é objectificada na publicidade e nos media e o homem já o começa a ser também massivamente, isto é viste como natural. Corpos nus e esculturais são-nos apresentados como se se tratassem de bombons de chocolate. Há algo de errado com isto, sem dúvida alguma. Neste sentido a conversa do “homem branco privilegiado” é completamente inválida. No feminismo como noutros parâmetros. Tanto um homem branco como um homem negro como um homem às pintinhas azuis que venham para uma Universidade portuguesa estudar são tratados com o mesmo respeito, neste país são-lhes concedidas as mesmas oportunidades. Existem casos de Universidades nos EUA onde, simplesmente por uma pessoa ser negra pode entrar numa faculdade na qual um “branco privilegiado” não entraria, ainda com nota mais elevada, pura e simplesmente pelo tom da sua pele dele ser mais claro. Falou-se ainda recentemente sobre casos semlhantes no Brasil onde algumas universidade devem reservar uma quota parte dos seus alunos para as minorias, quer as pessoas destas tais minorias sejam qualificadas ou não. Isto é racismo.
    Não me atirem o discurso do “homem branco privilegiado” quando a Alemanha paga enormes indemnizações anuais ao povo judeu que acabam por financiar o genocídio que está a acontecer. Curioso também ninguém falar sobre o “Kick a Ginger Day” popularizado pela série South Park que incentivou miúdos a agredir crianças simplesmente por serem ruivas. Ao longo dos anos ruivos e albinos sofreram massacres escandalosos em África mas o assunto também não é relatado nas notícias.
    Isto dá pano para mangas e há muito que ainda tem de ser mudado.
    Relativamente ao papel das mulheres na luta pelas injustiças no Oriente aconselho-te a ver este vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=wJkFQohIKNI

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  3. K says:

    Quando a comentei, referi o movimento HeForShe, da qual sou fã e, ao ler esta tua passagem: “E honestamente não penso que isto seja negativo. Se as pessoas entenderem que uma mulher pode gostar de desporto, talvez seja meio caminho andado para essas mesmas pessoas entenderem que um homem pode gostar de maquilhagem”, tive logo de me lembrar de uma coisa que lá li e achei amorosa.
    O testemunho de um homem que, em criança, brincava com as barbies da irmã e amava-as tanto quanto a irmã e nunca foi isso que o tornou mais ou menos (esta última normalmente é a que prevalece, na opinião popular) homem.

    Se ela se tivesse focado mais nos discursos da Emma e no movimento que ela lançou, acho que teria uma visão mais correcta do que é o feminismo. Eu, pelo menos, tento focar-me nesse e fico cheia de orgulho de ver mulheres e homens unidos pela igualdade. Mas cá, não há muito essa união, infelizmente (embora já a comece a ver em miúdos mais novos – também me deixou orgulhosa). Em grande parte, porque não há gente famosa, por exemplo, (vá, com poder) capaz de motivar aquelas pessoas que não têm acesso à informação (ou que não querem ter, que é o que acontece a muitos homens, na minha TL do Twitter) passada pela Emma, pela Beyoncé, pela Sophia Bush, pelo Matt McGorry, pelo Eddie Vedder (que, há dias, expulsou um homem de um concerto seu, por ter reparado que ele estava a ser agressivo para uma mulher…), pelo Barack Obama…. Cá, não há ninguém capaz de transmitir a mensagem como estas pessoas, na minha opinião. Por isso, haverá sempre um conjunto que nunca irá entender o que é o feminismo e só irá ver as tais notícias que mencionas, que nem sobre feminismo são. Claro que, assim, as feministas serão sempre umas maluquinhas, para este grupo da sociedade.

    Não sei se foi o caso, mas também há quem se mantenha do contra só para ser diferente. Ainda há dias, li um texto bem pior que esse (se encontrar por aí um link, envio-te). Dizia cada barbaridade, em relação aos mais variados assuntos… Mas, depois, quando alguém a contrariava, nos comentários, ela já se justificada e acabava por dizer o mesmo do que as pessoas que a contrariavam. Então, se pensa como uma feminista, como uma pessoa contra a homofobia e contra o racismo, qual é o sentido de escrever uma coisa daquelas?

    Enfim… Não vou saturar-te mais.🙂 Só peguei naquele excerto, mesmo pela memória engraçada. Quanto ao restante, não há muito a dizer, porque já disseste tudo.🙂

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  4. alexis says:

    Não conheço a rapariga em questão, mas é uma ideal muito naive achar que está tudo bom e perfeito porque vivemos no ocidente, é um facto que somos privilegiadas em relação a outras mulheres, mas há tantas coisas a melhorar e a mudar, a começar pelas mentalidades das pessoas…

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  5. Sofia Sousa says:

    Eu li o texto e, na altura, fiquei em choque, depois percebi um pouco o lado dela e agora também te percebo a ti.
    Chocou-me a parte salarial. Mas o exemplo que ela deu, se não me engano, era de mulheres que trabalham menos horas para cuidar dos filhos e não das que são mães, sem deixar que isso afecte o trabalho. Pelo menos, foi com essa ideia que fiquei. (Quanto aos que têm as mesmas responsabilidades e horas, não estou informada, não opinei) E, depois, num comentário explicou melhor a posição, em relação à rape culture. Só que deixou de fora outras questões. Tudo bem que não são só as mulheres a sofrerem de abusos sexuais, mas ainda há imensa culpabilização da vítima e uma certa pena do que a prisão poderá provocar no violador (lol). Referi-lhe isso, num comentário. Esta é uma das vertentes em que é necessário fazer barulho, sim, tanto mulheres como homens, porque é coisa que não faz sentido nenhum. É desvalorizar completamente o sofrimento da vítima que, caso eles se esqueçam, vai estar lá para sempre.
    Acho que a menina também não se soube explicar muito bem, em certas alturas. A minha primeira reacção foi a mesma que a tua, mas depois lá tentei fazer o esforço de tentar ver bem o que ela queria dizer (ou o que eu desejava que ela quisesse dizer.xD)
    É verdade que somos umas privilegiadas, mas não se pode dizer que os problemas acabaram, infelizmente.

    E ainda há muito a fazer, quanto à educação e mentalidade dos homens, de facto. Tanto no sentido em como vêem a mulher, como no sentido de mudar essa estupidez de que “homem não chora, nem sente”… Errr! Tens toda a razão. E concordo contigo em todos os aspectos. Mas volto a referir que (pelo menos, espero) a rapariga não se expressou tão bem quanto queria. (Embora tenha ido um pouco pelo “há quem esteja pior, por isso não se queixem”)

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