Food for Thought | Sexism at the Olympics 2016

257Como em qualquer competição desportiva em que se tenham comentadores, há sempre muita idiotice a ser dita. E começo por um dos comentários mais idiotas que eu já ouvi. Primeiros dias das provas de natação e numa das eliminatórias está a participar o Michael Phelps. Até aqui muito bem, o problema é quando um dos comentadores da RTP diz esta brilhante pérola: *mais palavra, menos palavra* “magnífica prova e o Michael Phelps está em excelente forma depois de ter sido pai”. Ohhhh sim claro porque deve ter sido um inconveniente ele ter sido pai, nem imagino o quão complicado foi voltar à forma depois de ter feito sexo com a mulher e a ter engravidado. O rapaz até é um cavalo marinho e na realidade foi ele que deu à luz à criança.

E há que também não esquecer os comentadores da RTP no que tocou às provas de ginástica artística feminina. Não só foi de muito mau gosto rebaixarem uma atleta pelo seu peso – quando na realidade a rapariga não podia ser mais saudável -, como foi completamente sexista e machista terem usado atletas masculinos para medir as capacidades atléticas das ginastas. É incrível como ainda vivemos numa sociedade em que o homem é visto como o god almighty, ao qual todos os seres inferiores – aka as mulheres – têm de ser obrigatoriamente comparados.

Mas não fomos os únicos com estes comentários. No meio de tanta idiotice, os comentadores da NBC devem ter atingido um novo recorde de estupidez colectiva: compararam a Simone Biles e a Katie Ledecky – ambas campeãs olímpicas no Rio em diversas provas – a atletas masculinos, como se esta fosse a única maneira de se conseguir medir o valor dela; estavam estupefactos como é que a Dana Vollmer continuou a competir a um alto nível depois de ter sido mãe – à mais de um ano, diga-se -, como se a gravidez nos tornar-se inválidas para o resto da vida; o crédito de todo o esforço e dedicação da Katinka Hosszu foi dado ao seu marido, que por acaso é o seu treinador – isto é tão estúpido como culpar os treinadores pela porcaria que os seus jogadores fazem nos jogos. E isto tudo para além de insinuarem que desporto não é uma coisa de mulheres, que estas só vêem os Jogos Olímpicos como uma espécie de reality show.

E o cúmulo do sexismo nestes Jogos Olímpicos deu-se quando vários jornalistas americanos (e se calhar de outros países também) desculparam as acções dos nadadores norte-americanos que vandalizaram uma bomba de gasolina como sendo simplesmente atitudes de crianças, ao mesmo tempo que criticaram a Gabby Douglas por esta apresentar uma expressão pouco alegre enquanto assistia a algumas provas de ginástica artística nas bancadas da arena. O ar matador que o Michael Phelps fez ao Chad Le Clos – rivais desde Londres 2012 – ninguém comentou, mas a pobre da Gabby Douglas foi logo publicamente crucificada. E desculpem-me lá mas dizer que as atitudes do Ryan Lochte e dos outros nadadores foi coisa de criança, foi a coisa mais absurda que eu já ouvi. Desde quando é que homens de 30 e tais anos são crianças? Desde quando é que por serem atletas federados todos os seus crimes e ofensas públicas podem ser automaticamente desculpados?

Não é que nada disto me surpreenda porque infelizmente não há nada de novo aqui, mas os duplos standards da sociedade ainda me fazem muita confusão, especialmente se pensarmos que vivemos no século XXI. Não é que alguma vez tenha estudado textos referentes aos Jogos Olímpicos da Roma Antiga – nem sei se alguém já estudo isto a fundo, mas tenho um feeling muito grande que a sociedade de então era capaz de ser bem mais aberta que a de agora. Hoje em dia desenvolvimento tecnológico existe aos pontapés, a correspondente evolução das mentalidades é que está a tardar a desenvolver-se. Como portugueses gostamos muito de dizer que “devagar se vai ao longe“, mas caramba já estamos a mais de meio da segunda década do século XXI, já era de esperar que as mentalidades tivessem a progredir e não a regredir.

E a minha última palavra para os comentadores da RTP que tive de aturar durante duas semanas, e para os da NBC que são do pior jornalismo mundial que existe:

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3 thoughts on “Food for Thought | Sexism at the Olympics 2016

  1. K says:

    Segui isso tudo no Twitter. Vi um conjunto de notícias em que nenhuma mencionava o nome das vencedoras das medalhas. Não estou a par de quem ganhou o quê, mas era tudo do género “esposa de x ganha medalha em não sei que modalidade”… Havia umas quantas assim. Que falta de respeito! (O link: https://twitter.com/MuslimIQ/status/762419341035831300)

    E a escandaleira que houve porque uma apresentadora/comentadora usou um vestido, alegadamente, demasiado curto? “Oh minha nossa, que há crianças a assistir”. Agora, é pecado ver-se um pouco de perna.

    A minha alma ficou parva. Estava tudo com medo por causa do país anfitrião e quem tornou os jogos olímpicos uma vergonha foi apenas a comunicação social e esses três nadadores idiotas. Também tinha bastante a dizer sobre eles, mas nem começo!

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