Food for Thought | Women’s International Day

257Acho fantástico que se tenha um Dia Internacional da Mulher. Já os outros eventos do género são para mim mais questionáveis – não tenho alergias ao capitalismo, mas há que admitir que estes eventos são mesmo só para nos fazerem abrir a mão do nosso dinheiro. Mas o Dia Internacional da Mulher permite que se discuta a falta de direitos a que o nosso género ainda assiste, e isso deverá ser mais do que valorizado. É uma excelente oportunidade para podermos ser ouvidas. Contudo, não deixo de sentir que são as únicas 24h de 365 dias em que as nossas vozes são melhor ouvidas – e aqui há que realçar que são mais as vozes ocidentais do que as restantes. E mesmo nesta altura se calhar ainda somos mal e porcamente ouvidas.

E isto tudo para falar um pouco do modo como é dada a História nas escolas (e universidades também). O que nós ouvimos é a História feita pelos homens e muito pouco, se não mesmo raramente, se ouve falar do papel da mulher na mesma. Quantas vezes é que ouvimos falar de uma mulher que tenha tido destaque num qualquer evento da nossa História? Acho que estas vezes podem ser contadas pelas nossas mãos, e se calhar só uma chegava. Não é que não me tenha apercebido disto há mais tempo, mas dado a alguns doodles que vimos nos últimos meses, lembrei-me de trazer este assunto para o blog. Um destes doodles referia-se a Sophie Taeuber-Arp, um elemento importante do Movimento Dada (arte abstracta), e uma pioneira do Neoplasticismo e Construtivismo. E outro doodle que também me chamou a atenção foi o realizado em homenagem a Beatrice Tinsley, uma astrónoma e cosmóloga neozelandesa. E até aqui a coisa até parece bem. É bom ver que o trabalho de mulheres é reconhecido, ainda que várias décadas ou séculos depois. O problema é as coisas que se lêem sobre as mesmas. O modo como este artigo começa deixa-me muito desapontada. Em vez de apenas introduzirem a senhora como tendo sido essencial para o conhecimento das galáxias, do modo como elas crescem/evoluem, e para o debate acerca do nosso universo ser aberto ou fechado, entre outros aspectos, os jornalistas optaram por acrescentar esta pérola: “em 1974, divorciou-se e afastou-se dos filhos adotados para se dedicar à carreira”. Faz parte da sua história como pessoa? Faz. Era necessário? Nem por isso. E este assunto vai completamente ao encontro do que a Nádia escreveu no seu post aqui. É assim tão inconcebível, aos olhos de hoje, uma mulher ter uma carreira? E dar a isso maior importância? A função da mulher é mesmo só procriar? O valor de uma mulher é mesmo medido pelos filhos que tem ou não tem? Quando é que vamos ter direito a fazer as nossas próprias escolhas sem sermos martirizadas por isso?

Sophie Taeuber-Arp, Composition in Dense, Polychrome, Quadrangular Spots, 1921

Sophie Taeuber-Arp, Composition in Dense, Polychrome, Quadrangular Spots, 1921

O interessante é que neste dia somos elevadas a um género importantíssimo para a nossa espécie, quando nos restantes 364 dias do ano muitas de nós continuam a ser tratadas abaixo de cão e/ou como meros e simples objectos. Se calhar em vez de um Dia Internacional da Mulher, precisávamos era mas é de 365 Dias Internacionais da Mulher, a ver se assim a sociedade abria a pestana de uma vez por todas.

3 thoughts on “Food for Thought | Women’s International Day

  1. Nádia says:

    Eu acho que um bom referencial a atestar a pouca relevância dessa efeméride para discutir as questões reais está na própria denominação: Dia Internacional da Mulher em vez de Dia Internacional dos DIREITOS da Mulher. Eu acho que um Dia Internacional dos Direitos da Mulher é de suma relevância enquanto estes não forem garantidos em todo o mundo. E claro que, mesmo no Ocidente, os direitos legais igualitários mascaram muita desigualdade. Acreditas que já ouvi uma mulher que teve que lutar contra a discriminação e assédio no trabalho, por ser uma área predominantemente masculina, dizer que os direitos não se pedem, conquistam-se? Acharmos que é normal partirmos de uma situação de desvantagem apenas devido ao nosso género é uma prova de como um dia assim faz sentido. Infelizmente, para o cidadão médio, o Dia da Mulher é o dia de chegar a casa com um ramo de flores e sentar-se no sofá à espera que a esposa cozinhe o jantar, como em todos os outros dias.

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  2. Miguel says:

    Muito obrigado querida. A sério?! Opah, adoro saber que somos suuuuper parecidos em tantas coisas😀 Gostava de um dia te poder conhecer mesmo :’)

    Concordo contigo. Este género de efemérides não me encaixam na cabeça. Há dias para tudo e mais alguma coisa mas, respeito por isso, não há nenhum! As mulheres, tal como os Homens, têm o direito de trabalharem onde e como quiserem assim como fazer uma carreira. Não são um ser mais frágil. Muito pelo contrário. Conheço Mulheres a trabalhar mais que o Homens!

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